Na cozinha de 4x8 ela criou um negócio: empreendedorismo feminino na veia
Flávia fundou a Casa dos Quitutes em Francisco Beltrão/PR depois de anos empreendendo sozinha em vários estados do Brasil. Quando chegou quebrada e sem crédito, recomeçou do zero, nos fundos da casa da mãe, com apenas um freezer. Buscou apoio do Sebrae/PR, aprendeu a gerir e determinar o preço dos produtos que vendia. E aí, cresceu de verdade.
Empreendedora: Flávia Campos
Negócio: Casa dos Quitutes — produção de salgados, doces, bolos e sobremesas; atendimento a empresas, órgãos públicos e eventos
Território: Francisco Beltrão/PR — Sudoeste do Paraná
Origem: anos de empreendedorismo em alimentação em diferentes estados, marcados por recomeços constantes e muita resiliência
Virada: chegada a Francisco Beltrão completamente quebrada, recomeço numa cozinha improvisada de 4x8m nos fundos da casa da mãe — e a decisão de aprender a gerir o negócio de verdade
Desafios: separação, falências, recomeços em múltiplas cidades, trauma de endividamento, operação solo por anos, dificuldade de precificação e mistura do financeiro pessoal com o empresarial
Diferencial: produto artesanal de alta qualidade, clientela construída por indicação, capacidade de produção escalável e visão estratégica de crescimento
Conquistas: registro da marca Casa dos Quitutes no INPI, participação na Expobel 2026, contratos de coffee break com órgãos públicos, faturamento multiplicado por 10, trailer próprio para eventos e máquina de produção industrial
Sebrae/PR: Nascer Bem (Sebrae/MS) + Empretec + consultorias individuais de financeiro e marketing no Sebrae/PR de Francisco Beltrão
Uma vida de recomeços e a comida como fio condutor
Flávia não começou a empreender por ter tido uma ideia ou por uma oportunidade de mercado. Chegou por necessidade. Vontade. E ficou por vocação. Casada com um militar do exército, mudou de cidade a cada três ou quatro anos: Campina Grande, Campo Grande, Rio de Janeiro, Goiás e Curitiba. A cada mudança, a primeira coisa que ela fazia quando chegava em um novo lugar era procurar o Sebrae. Como mulher empreendedora, ela sabia que sempre iria encontrar ali todo apoio necessário.
Enquanto ainda era casada, começou a vender seus quitutes para conquistar independência financeira. Aí, no Rio de Janeiro, aconteceu a separação. Mais do que nunca, trabalhar com alimentação se tornou um caminho. Sozinha, passou os mais de dois anos que restavam da faculdade de Administração de Empresas acordando às 3h30 da manhã para produzir salgados, bolos e sobremesas. Parava o carro em frente ao prédio onde morou, ou numa praça onde os formandos faziam fotos, abria o porta-malas e fazia suas vendas. Quando sobravam produtos, pegava o ônibus e ia vender em Niterói, na faculdade. Foi assim que pagou os estudos. No dia das fotos da sua própria formatura, enquanto os colegas posavam com plaquinhas, ela estava atrás de uma mesa de plástico vendendo quitutes para eles.
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O fundo do poço e a volta de carona
Curitiba era o sonho. E foi lá que tudo desmoronou. Sem crédito, sem reserva, com 20 reais no bolso e três quilos de calabresa no freezer, Flávia chegou ao limite. Comprou um quilo de farinha, um quilo de cenoura, uma dúzia de ovos e fez um bolo para atender o último pedido que tinha. Não sobrou nem pra comprar uma tangerina, fruta que ela ama. Foi o suficiente para decidir: era hora de voltar.
Voltou de carona numa carreta, às 4h30 da manhã, para Francisco Beltrão, cidade onde havia crescido e da qual ficara 25 anos afastada. Chegou à casa da mãe sem dinheiro, sem equipamentos e com um único freezer. A mãe construiu um cômodo de 4×8 metros nos fundos da casa. E dali, Flávia recomeçou mais uma vez. Desta vez com uma diferença: estava disposta a aprender o que ainda não sabia.
Sebrae/PR: o direcionamento que faltava
O Sebrae já era presença constante na trajetória da Flávia. Em cada cidade nova, era a primeira porta que ela batia. No Mato Grosso do Sul, fez o Nascer Bem, programa voltado ao planejamento e estruturação de novos negócios. Em Francisco Beltrão, chegou até a consultora Joce e a consultora Claudia, do Sebrae local, num momento de total fragilidade. Especialistas em empreendedorismo feminino, elas receberam Flávia, ouviram sua história e mostraram caminhos: consultorias de financeiro para entender onde o dinheiro estava indo, consultoria de marketing para aprender a aparecer na cidade.
O passo seguinte foi o Empretec. Foi lá que a virada de gestão aconteceu de verdade: Flávia entendeu que estava determinando o preço de seus produtos “de cabeça”, misturando conta pessoal com conta da empresa e trabalhando dentro do negócio sem nunca conseguir olhar para ele de fora. “Eu entendi que a empresa pode ser sua no papel, mas ela precisa ter as próprias pernas para caminhar.” A partir daí, tudo mudou de velocidade.
De um freezer ao trailer: o crescimento que virou empresa
Em menos de dois anos após o Empretec, a Casa dos Quitutes deixou de ser uma operação de sobrevivência e virou um negócio estruturado. O faturamento multiplicou por 10. O único freezer virou sete. Vieram dois fornos industriais, uma máquina capaz de produzir 12 mil salgados por hora e um trailer mandado fazer sob medida para eventos. A marca foi registrada no INPI. Os primeiros contratos com órgãos públicos chegaram — coffee breaks em Francisco Beltrão e Pato Branco. A Casa dos Quitutes participou da Expobel 2026, maior feira da região, com presença de mais de 200 mil visitantes.
Tudo isso ainda numa cozinha nos fundos da casa. Mas agora com sete freezers, dois fornos e uma fila de decisões estratégicas pela frente: ponto físico, fábrica de salgados, primeira contratação, curso online. O problema mudou de natureza. Não é mais sobrevivência. É escolha.
O Sebrae não vai dizer para você que não dá. Ele vai tentar te dar estrutura para pelo menos tentar. Ele não vai fazer você desistir. E essa é a parte boa.”
Flávia, Casa dos Quitutes
Parceria com o Sebrae/PR: passo importante para mulheres que empreendem
A relação da Flávia com o Sebrae não começou em Francisco Beltrão. Começou anos antes, em outros estados, cada vez que ela chegava numa cidade nova e precisava entender como se encaixar. O que mudou em Beltrão foi a profundidade: pela primeira vez, ela chegou no fundo do poço e encontrou pessoas que a ouviram, a direcionaram e não a deixaram desistir. Do Nascer Bem ao Empretec, das consultorias de financeiro ao marketing, cada passo teve orientação. E os próximos passos, seja a fábrica, seja o ponto físico, seja o curso online, também vão ter.
Inspire-se e vá adiante
A história da Flávia mostra que recomeçar não é fracasso, é parte do caminho. Com estrutura, gestão e um parceiro que sabe ouvir e apontar a direção certa, uma cozinha de 4×8 metros pode ser o lugar onde uma mulher cria uma empresa de verdade.
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