

Já perceberam que a inovação deixou de ser um ativo e passou a ser um serviço? Vivemos hoje sob a era do “próximo grande lançamento”, onde o valor tecnológico não é mais capturado na aquisição, mas na recorrência. A lógica mudou de CAPEX (despesas de capital, investimentos em ativos que geram valor ao longo do tempo) para OPEX (despesas operacionais, custos contínuos para manter a operação), e o que antes era incorporação de capacidade virou dependência contínua de acesso.
No Brasil, há alguns anos, era comum ouvir consumidores afirmarem que ao adquirir um iPhone “tudo era pago”, como se a experiência estivesse inevitavelmente atrelada a custos adicionais contínuos. Essa percepção, que inicialmente parecia uma particularidade do ecossistema da Apple, hoje se expandiu e ganhou escala. A lógica do “próximo grande lançamento” deixou de ser apenas uma estratégia de produto e passou a estruturar mercados inteiros, especialmente no campo da inteligência artificial.
Ao observar o cenário atual, fica evidente que gigantes como OpenAI, Google e Anthropic não estão apenas inovando. Elas operam sob a dinâmica do Efeito Rainha Vermelha, uma corrida contínua onde acelerar não é diferencial, é requisito mínimo de sobrevivência. Nesse ambiente, a lógica econômica deixa de ser centrada exclusivamente em lucro e passa a refletir uma verdadeira corrida armamentista de modelos, na qual qualquer avanço marginal já é suficiente para deslocar usuários e redefinir preferências.
Destaco o estudo “The Economics of Digital Intelligence Capital: Endogenous Depreciation and the Structural Jevons Paradox”, de Zhang, Y. e Zhang, T. (2026), que demonstra como, no mercado de inteligência artificial, a inovação de uma empresa reduz automaticamente o valor das soluções concorrentes, gerando uma pressão contínua por evolução apenas para manutenção de posição competitiva, característica típica do Efeito Rainha Vermelha. Neste estudo, Zhang e Zhang (2026) demonstram que, no contexto da inteligência artificial, o avanço tecnológico não gera necessariamente vantagem competitiva duradoura, mas provoca uma depreciação imediata das soluções concorrentes, criando um ciclo contínuo de atualização. Esse fenômeno impõe às empresas a necessidade de inovar de forma constante não para liderar, mas para não perder relevância, reforçando uma dinâmica onde o progresso é simultaneamente motor de valor e fator de obsolescência acelerada.
O que se extrai dessa reconfiguração é uma mudança profunda na lógica de consumo e apropriação da tecnologia, onde o valor deixa de estar na posse e passa a estar no acesso condicionado, contínuo e progressivamente mais custoso. Trata-se de um modelo que privilegia previsibilidade de receita e retenção de usuários, ao mesmo tempo em que transfere para empresas e profissionais o ônus da adaptação constante, da dependência operacional e da perda gradual de autonomia estratégica.
A questão central passa a ser até quando consumidores e usuários aceitarão a condição de dependência dos chamados “ecossistemas”. A forma de consumir tecnologia mudou de maneira estrutural, e esse movimento é irreversível, mas veio acompanhado de mecanismos que reforçam vínculos contínuos e reduzem a autonomia do usuário. Cito que a base desse modelo está sustentada por três pontos centrais:
Entre esses pilares, destaca-se a SaaSificação compulsória, que transforma inovação em receita recorrente e converte avanços tecnológicos em despesas operacionais contínuas, diluindo a percepção de valor ao longo do tempo. Soma-se a isso o Product Tiering, modelo que estabelece uma hierarquia de acesso baseada na capacidade de pagamento, segmentando o uso de tecnologias mais avançadas. Já o Lock-in Effect atua como um fator de retenção, incentivando a integração profunda de dados e operações em plataformas específicas, o que eleva o custo de saída e limita a liberdade de migração.
Quero acreditar que a busca pela inovação permaneça como pano de fundo constante desse movimento, e não que estejamos diante de uma lógica predominantemente orientada à expansão de receitas por meio de fluxos contínuos de consumidores e usuários. No entanto, à medida que modelos baseados em recorrência se consolidam, cresce a percepção de que o avanço tecnológico pode estar sendo, em parte, instrumentalizado para sustentar previsibilidade financeira e retenção de mercado, deslocando o foco do valor gerado para o valor capturado. Até quando esse equilíbrio permanecerá sustentável é a questão que se impõe. Até quando o mercado aceitará a substituição da inovação como valor central por modelos que priorizam retenção e previsibilidade de receita. E, sobretudo, até quando usuários e empresas estarão dispostos a absorver custos crescentes, dependência tecnológica e perda de autonomia em troca de conveniência e acesso incremental.
Minha maior indagação é se, de fato, estamos inovando ou apenas induzindo dependência em uma massa expressiva de usuários por meio de soluções ainda em estágio beta. A sensação recorrente é que o mercado tem acelerado ciclos de lançamento não necessariamente para consolidar valor, mas para manter tração, engajamento e previsibilidade de receita. Nesse contexto, versões preliminares deixam de ser exceção e passam a compor o núcleo da oferta, transferindo para o usuário o custo da maturação tecnológica. O que deveria ser um processo interno de validação torna-se um modelo distribuído, onde o mercado testa, adapta e sustenta ferramentas que ainda não atingiram plena estabilidade. Isso reforça uma lógica onde a inovação é continuamente prometida, mas raramente finalizada, criando um ciclo de atualização permanente que fortalece a dependência e dilui a percepção de entrega concreta. A questão, portanto, não é apenas sobre avanço tecnológico, mas sobre o quanto desse avanço está sendo, na prática, terceirizado para quem consome.



