

Em meio às campanhas de conscientização do Novembro Azul, que destacam a importância do diagnóstico e do tratamento do câncer em homens, existe uma realidade paralela e dolorosa que quase não recebe os holofotes: a vulnerabilidade emocional e social de mulheres com câncer que são abandonadas pelos parceiros.
Segundo a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), cerca de 70% das mulheres em tratamento oncológico enfrentam o abandono afetivo e relacional por parte de seus parceiros.
Esses números não são apenas estatísticas: são histórias de solidão, rejeição e luto em meio a uma das fases mais difíceis da vida.
Relatos de psicólogas, como Nayana Ribeiro, apontam que esse abandono muitas vezes tem raízes profundas : insegurança emocional, expectativas culturais, dificuldade para lidar com a doença da mulher e com as transformações no corpo e na vida.
Impactos para a saúde mental e para o tratamento
O distanciamento afetivo durante o tratamento de câncer não é apenas simbólico — ele agrava riscos reais:
Saúde mental debilitada: A psicóloga Helen Limões destaca que o sofrimento emocional decorrente do abandono pode superar a dor física da doença. Isso pode levar a quadros de depressão ou ansiedade, dificultando a adesão ao tratamento.
Impacto no tratamento: Estudos e especialistas apontam que o abandono pode retardar os resultados da quimioterapia ou radioterapia.
Estigma social e autoestima: A mulher em tratamento muitas vezes lida com mudanças no corpo (como queda de cabelo, remoção de mama) que mexem com a identidade. A falta de apoio emocional reforça sentimentos de rejeição e desvalorização.
As razões para esse fenômeno são complexas, mas algumas explicações recorrentes apontam para:
Padrões de gênero: homens podem ter dificuldade para assumir o papel de cuidador ou enxergar o parceiro adoecido como um foco legítimo de vulnerabilidade. Estado de Minas+1
Imaturidade emocional: o diagnóstico pode revelar fissuras já existentes na relação, e alguns parceiros optam por se distanciar quando a “crise” se torna concreta. Correio Braziliense
Falta de preparo social: muitos casais não foram preparados para lidar com uma doença grave como câncer — e a educação emocional ainda é deficiente para apoiar a construção de empatia profunda em momentos críticos.
Diante desse abandono, a rede de apoio se torna não apenas benéfica, mas muitas vezes essencial. Segundo a psicóloga Kamilla Santana, o suporte de familiares, amigos e instituições pode fazer toda a diferença para a saúde emocional e para a permanência no tratamento.
Além disso, trazer esse tema para o centro do debate público ajuda a:
Desmistificar a ideia de que “quem ama, nunca abandona”: o abandono não é sempre fruto de maldade, mas muitas vezes de estrutura emocional ou cultural que não se preparou para a crise.
Incentivar políticas públicas e programas de acolhimento para pacientes oncológicas, que incluam suporte psicológico e social como parte do tratamento.
Mobilizar campanhas (tanto no Outubro Rosa quanto no Novembro Azul) que conectem saúde física e emocional, ampliando a visão não apenas para a doença, mas para a dignidade humana.
Se você é mulher e está passando por essa situação, saiba que não está sozinha: buscar apoio profissional (psicologia, grupos de paciente, ONGs) pode mudar a forma como você vive essa jornada.
Se você é parceiro ou pessoa próxima: escute, ofereça presença, valide o sofrimento. O cuidado é tão importante quanto o tratamento médico.
E para a sociedade em geral: precisamos urgentemente ampliar o discurso sobre saúde para além da biologia. O câncer é uma luta que transcende o corpo, também é emocional, relacional e social.



