
O Marido, Pai, Produtor e Historiador
Misael Jefferson Nobre é filho de gaúcha com nordestino. Ele se autodefine pela dieta singular: “Como buchada de bode e tomo chimarrão”. Ele tem esposa, a Santinha de Fátima, e três filhos: Misael Moraes, André Yuri e Dhenner Eduardo, com 32, 31 e trinta anos, respectivamente. Sobre as poucas diferenças de idade, brinca: “Um estava no chão, um no colo e outro na barriga.” Também deixa claro de onde ele é: “Pertenço à comunidade tradicional dos ilhéus do Rio Paraná, na divisa do Mato Grosso do Sul com o Paraná. Moro na Ilha Jujuí, que pertence a Querência do Norte”.
Produtor de Ginseng, bem poderia ser um historiador. Instigado a falar sobre a relação dele com o produto, Misael organizou o raciocínio em períodos da história:
Na década de 70, o PROIR - projeto de irrigação - atraiu produtores para Querência do Norte, transformando a cidade na Capital do Arroz Irrigado do Paraná. Com as grandes plantações chegando, quase todo o ginseng nativo da região começou a desaparecer, dando lugar ao arroz. As pessoas, mesmo tendo pouca informação e sem ideia sobre a qualidade do produto dali, usavam o ginseng como cicatrizante, ou então na cachaça, como corante e afrodisíaco. Chamavam de vários nomes curiosos: corango, sempre viva, corrente, pára tudo.
Na década de 80, ainda havia ginseng nas fazendas da região. Com a chegada dos assentamentos, as áreas passaram a ser loteadas. Os assentados, com pouca ou nenhuma informação, faziam coletas clandestinas e predatórias, com a finalidade de vender a raiz e agregar renda. Eles tocavam fogo indiscriminadamente nas plantações e o prejuízo ambiental era enorme, não apenas para o ginseng, mas também para demais culturas.
Já era década de 90 quando, finalmente, pesquisadores coletaram amostras do ginseng dali. Elas foram enviadas para pesquisa na USP, onde foi identificado como Ginseng Brasileiro, da espécie efaffia gromerata. São inúmeras as diferentes espécies de ginseng espalhados pelo mundo inteiro. No Brasil, há 23 espécies. A efaffia gromerata só nasce na região de Querência do Norte. A partir dos resultados da pesquisa da USP, em 1995 os técnicos da Emater começaram a pesquisar a reprodução do ginseng de Querência para fins comerciais, até que, em 2003, confirmaram o potencial.
Um Secretário de Visão
Em 2005, Misael Nobre foi convidado para ser Secretário de Agricultura do Município. A ASPAG – Associação dos Pequenos Agricultores de Ginseng de Querência do Norte - foi criada, visando proteger o ginseng nativo e utilizá-lo de forma sustentável, ao invés da maneira predatória como vinha sendo explorado. Uma das saídas era produzir mais raízes, sem utilizar o ginseng das ilhas. Em 2010, começa a produção e beneficiamento do Ginseng de Querência do Norte e, desde então, finalmente cessaram aqueles incêndios oriundos da extração clandestina pelas ilhas.
Ainda em 2005 e como Secretário Municipal, Misael, entendendo que a atividade gerava mais uma fonte de renda, incentivou a produção do ginseng pelos pequenos produtores e ilhéus. Eles passaram a ser orientados para a produção orgânica, sem fungicida, inseticida, herbicida ou adubos químicos. O Misael passou a produzir, ele mesmo, e segue plantando e colhendo ginseng em um lote que arrendou a 5km do centro da cidade. Atualmente, cultiva em três hectares. Em 2024, pretende chegar a dez hectares.
Ciclo do Ginseng
O ciclo produtivo do ginseng começa na coleta da semente, passa para muda e é levado para o campo, onde o plantio é feito, de preferência, no inverno, quando se perde menos. No verão, se a muda não for muito forte, ela provavelmente vai cozinhar. A colheita é feita um ano depois.
A ASPAG beneficia o produto e o produtor vende. Haja participação em feiras e demonstrações de que se trata de ginseng puro. Segundo Misael, o concurso de boas práticas do Sebrae ajudou a melhorar o cenário como um todo.
A partir de 2015, o ginseng da região passou a ser vendido para a França. Em 2016, foi para a China e Japão. “No exterior estamos bem afamados”, comemora o Misael.
Atualmente são 27 produtores associados na ASPAG. Dentre eles, somente oito plantam. Os demais partiram para outras atividades, embora continuem sendo associados.
Ginseng de Querência do Norte
O Ginseng de Querência do Norte é uma planta nativa da localidade. Ele se diferencia por ser produzido de forma orgânica, com rastreabilidade da etapa de plantio até a colheita. Outra especificidade é a forma como o beneficiamento é realizado: a raiz é separada do talo para ser lavada e esterilizada. Então vem a seca, a moagem, podendo ser secada novamente, depois de moída. O ginseng mais grosso passa por uma moagem; o médio, passa por duas; o fino passa por três moagens. O preço varia de acordo com o número de moagens, ficando mais caro conforme o maior número. O processo de secagem é feito ao sol para não alterar o princípio ativo. Todo cuidado é voltado para garantir um produto 100% puro. Finalmente, ele é embalado isento de contaminação.
Indicação Geográfica
O processo para o Ginseng de Querência do Norte ser depositado no INPI está em etapa de registro da documentação e análise em laboratório. Esta análise servirá para comprovação da existência do princípio ativo e do nexo causal, ou seja, justamente o ginseng ser diferenciado. Segundo o Misael, “A aposta está sobre o princípio ativo, que só é detectado em laboratório.”
A previsão de entrada no INPI é no início de 2024.
Participam do processo o Sebrae, ASPAG, Prefeitura Municipal, Emater e IDR.
Mais Informação
ASPAG e Prefeitura Municipal de Querência do Norte.


