

Quando chega o Novembro Azul, o foco é — corretamente — a prevenção do câncer de próstata e o cuidado com a saúde masculina. Mas, enquanto as campanhas convidam os homens a se cuidarem, existe um dado brutal que escancara uma realidade inversa: cerca de 70% das mulheres com câncer são abandonadas pelos parceiros durante o tratamento.
Esse número, tão chocante quanto real, muda completamente a forma como deveríamos discutir cuidado, saúde e gênero no Brasil.
Na sociedade brasileira, o papel do cuidado ainda repousa majoritariamente sobre as mulheres. Elas cuidam dos filhos, dos pais idosos, da casa, dos negócios — e, muitas vezes, do próprio parceiro.
Já os homens, quando adoecem, são cuidados. Quando elas adoecem, muitas vezes ficam sozinhas.
E entre as mulheres empreendedoras, essa sobrecarga é ainda mais intensa. Elas equilibram:
a gestão do negócio,
o sustento da família,
a carga doméstica,
e o cuidado emocional de todos ao redor.
Mas, quando precisam de apoio, encontram ausência.
O abandonado não é só afetivo — ele afeta diretamente:
1. A saúde emocional: A falta de suporte fragiliza o tratamento e aprofunda sentimentos de solidão, medo e culpa.
2. A continuidade do negócio: Muitas empreendedoras são chefes de família. Quando adoecem e perdem apoio, seu negócio, muitas vezes o único sustento de casa, fica em risco.
3. A renda e a autonomia:
Sem rede de apoio, elas precisam escolher entre cuidar de si mesmas ou manter o negócio funcionando. E nenhuma dessas escolhas deveria existir nessas condições.
Se o Novembro Azul nos convida a olhar para a saúde dos homens, ele também deveria nos levar a olhar para a saúde das mulheres que sustentam esse cuidado.
É preciso reconhecer que o autocuidado masculino só existe porque as mulheres seguem segurando a linha do cuidado não remunerado, emocional e doméstico.
E, quando essas mulheres adoecem, nem sempre há alguém segurando a mão delas.
O debate sobre câncer, cuidado e saúde não pode ignorar gênero — muito menos o contexto das mulheres empreendedoras, que sustentam famílias, movimentam a economia e, ao mesmo tempo, enfrentam solidão estrutural.
Falar de Novembro Azul é, também, falar delas.
É reconhecer que equilibrar saúde, trabalho, cuidado e empreendedorismo não deveria ser um ato de heroísmo - deveria ser uma responsabilidade compartilhada.



