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Arqueologia no Vale do Rio Jauru revela coexistência sucessiva de duas tradições cerâmicas e dois sistemas de assentamento pré-coloniais

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Arqueologia no Vale do Rio Jauru revela coexistência sucessiva de duas tradições cerâmicas e dois sistemas de assentamento pré-coloniais
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As pesquisas arqueológicas realizadas no médio curso do rio Jauru, em Indiavaí (MT), no contexto do licenciamento da PCH Figueirópolis, revelaram um dos cenários mais complexos de ocupação pré-colonial do oeste brasileiro. A área estudada, situada na interface entre Cerrado, Pantanal e Amazônia, confirmou-se como uma zona de fronteira cultural milenar, reunindo características ambientais propícias à instalação de grupos horticultores de diferentes tradições.

No total, foram identificados 34 sítios arqueológicos, dos quais 25 receberam intervenções mais profundas, incluindo escavações e abertura de 226 poços-teste. A análise do material cerâmico — mais de 11 mil fragmentos — aliada aos dados geomorfológicos, históricos e ambientais, confirmou a presença de dois sistemas distintos de assentamento, associados a dois tipos de cerâmica:
 (1) cerâmica com antiplástico areia e
 (2) cerâmica com antiplástico cariapé.

Esses sistemas refletem maneiras diferentes de produzir, ocupar, circular e se adaptar ao ambiente do Jauru.

A paisagem: mosaico entre três biomas

A região pesquisada apresenta um mosaico ambiental formado por:
floresta aluvial nas planícies sazonalmente inundadas;
cerradão em terraços fluviais;
cerrado aberto e transições em meia encosta.
O rio Jauru mantém corredeiras, curvas e ilhas que concentram peixes migratórios e residentes, além de flora variada com frutos, raízes, madeiras e solos férteis que favorecem grupos cultivadores. Isso explica a presença de numerosos sítios arqueológicos distribuídos ao longo de apenas 16 km de margem.

Dois tipos de pasta e processos distintos de produção

A análise da cerâmica revelou diferenças marcantes:
1. Antiplástico areia (mais comum)

pasta argilosa avermelhada;
queima irregular em atmosfera oxidante;
núcleo escurecido;
dureza Mohs 4;
maior diversidade de formas;
peças frequentemente decoradas.

2. Antiplástico cariapé (menos frequente)

pasta argilo-arenosa acinzentada;
melhor amassamento (sova) e mistura;
núcleo igualmente escurecido;
dureza Mohs 3;
formas mais abertas e planas;
quase nenhuma decoração.

Cores, queima e acabamento

A cor predominante das paredes cerâmicas é ocre-pardacento avermelhado (67%). Seguem-se:
pardacento-amarelado – 13%;
marrom – 13%;
sépia – 7%.
Há presença frequente de manchas de fumaça, indicando que a queima não isolava totalmente as peças das chamas.
Em termos de acabamento:
81% (9.699 fragmentos) são alisados simples, sem decoração.

  • 703 fragmentos pintados:

  • 390 pintados de vermelho na face externa;
291 pintados de preto na face interna;
22 pintados em preto e vermelho, em ambas as faces.
623 apresentam decoração incisa zonal.
31 fragmentos possuem decoração plástica (beliscada, zigue-zague, inciso geométrico triangular).
Em 11 fragmentos, a pintura vermelha aparece associada aos motivos triangulares incisos.
As decorações concentram-se nas cerâmicas com antiplástico areia, especialmente nos sítios grandes. As cerâmicas com cariapé são quase sempre sem decoração.

Variedade formal das vasilhas

Independentemente do antiplástico, foram encontradas inúmeras formas:
globulares, esféricas, semi-esféricas, tronco-cônicas, meia-calota e platiformes;
bordas cilíndricas, restritas, hiperbólicas, extrovertidas, introvertidas, inflectidas, reforçadas interna e externamente;
bases arredondadas, cônicas, aplanadas e planas em pedestal.
Depois de separadas por tipo de antiplástico, surgiram padrões nítidos.

SISTEMA 1 — Cerâmica com areia: formas fechadas, globulares e decoradas

Nos sítios com cerâmica de antiplástico areia, predominam:
vasilhas globulares e semi-esféricas;
formas em meia-calota com bordas extrovertidas e expandidas;
tigelas com borda reforçada;
bases cônicas e arredondadas;
estreitamento de gargalo com reforço externo.
As formas fechadas parecem associadas a funções de armazenamento e cozimento, típicas de horticultores que ocupavam o Jauru de maneira mais antiga.
Também aparecem fichas polidas, pesos de fuso, adornos e grande variedade de fragmentos decorados.

SISTEMA 2 — Cerâmica com cariapé: formas abertas e utilitárias

Nos sítios com antiplástico cariapé, predominam:
formas abertas e rasas;
pratos assadores, gamelas, tigelas rasas;
bases planas ou levemente aplanadas;
vasilhas platiformes;
quase ausência de decoração.
Esse conjunto é associado a grupos cultivadores do Cerrado, com padrão de aldeamento distinto, provavelmente posterior ao sistema da cerâmica com areia.

Conjunto lítico: discreto, mas revelador

O material lítico é reduzido, mas significativo:
2 lâminas de machado polidas com entalhe para preensão;
1 lâmina fragmentada;
11 lascas;
1 instrumento plano-convexo.
As matérias-primas usadas foram diorito cinza (machados) e quartzito branco (lascas e instrumentos).

Diálogo com a bibliografia e identificação cultural

Ao comparar os dois sistemas com tradições reconhecidas por diversos pesquisadores, surgiram associações claras:

SISTEMA 1 — Cerâmica temperada com areia

Relaciona-se à Tradição Descalvado/Pantanal, descrita por Migliácio (2006) e atribuída a grupos Arawak como:
Mojo
Bauré
Manasi
Guató
Paiaguá
Também apresenta semelhanças com as fases:
Jacadigo
Castelo
Taiamã
do Pantanal.

SISTEMA 2 — Cerâmica com cariapé

Aproxima-se da Tradição Uru, ligada a povos Macro-Jê, como:
Bororo
Nhanbikuara
Ararivá
Saraveka
Essa tradição é típica dos grupos cultivadores do Cerrado, especialmente Tocantins/Araguaia e bacia do Jauru.

Uma fronteira cultural dinâmica e sucessiva, não simultânea

Como os sítios dos dois sistemas aparecem misturados no espaço, mas exibem tradições claramente distintas, os pesquisadores concluíram que:
não são contemporâneos, e
representam ocupações sucessivas.
Assim, a cerâmica com areia seria a mais antiga; a cerâmica com cariapé representaria grupos posteriores.
Dillehay (2000), Ellen (1982), Steward (1963) e Suznik (1978) já mencionavam que vales férteis como o Jauru tendem a registrar intensa diversidade cultural ao longo do tempo, o que se confirma aqui.

Conclusão

O conjunto de dados demonstra que o Vale do Rio Jauru foi palco de pelo menos duas tradições cerâmicas, duas identidades culturais e dois modos de viver distintos, que se sucederam ao longo do tempo:
um sistema ligado à planície aluvial, com cerâmica globular, fechada e decorada (Tradição Descalvado/Pantanal — Arawak);
outro associado às áreas de cerrado, com cerâmica aberta, utilitária e sem decoração (Tradição Uru — Macro-Jê).
A convivência territorial, embora não simultânea, revela que o vale funcionou como corredor cultural entre o Pantanal, o Cerrado e a Amazônia, sendo um dos mais expressivos registros arqueológicos de fronteira cultural no Centro-Oeste brasileiro. Este artigo foi publicado originalmente em OesteMTurgente , boas notícias e bons artigos você encontra por la.

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